23 de dez. de 2009

Feliz ano-novo, pobres dedos velhos


Só de ver as propagandas de fim de ano, meu estômago se revira todo. Não que eu seja contra quem compra uma garrafa de vinho cujo preço equivale a alguns anos de trabalho ou um carro popular. Ah... Senhores puritanos que franziram a testa quando leram a expressão garrafa de vinho, aí vai um lembrete: temos, em nossa língua, o recurso denominado metonímia. Taça de vinho, caixa d’água, copo d’água, prato de comida – nesses casos, temos como idéia principal o conteúdo e não o recipiente. Voltemos à minha angústia. As propagandas têm poder de penetração tão grande que sentimos necessidade de adquirir quinquilharias sem a mínima necessidade. Isso não preenche o caos de nossos corações, mas exaure nossos bolsos. A sensação de vazio só é menor que a impressão de que fomos enganados como os índios que trocavam pedras preciosas e diamantes por espelhos europeus.




E o meu mal estar? Onde ele se encaixa nesse pseudo-ensaio sobre o materialismo? Como ser humano, emito e recebo boas e más vibrações. Meus sentimentos, por mais que neguem, são mais intensos que a fria razão de minha inteligência. Penso que não devo estimular o consumismo nem pagar um adicional a um comerciante que me vendeu um serviço de bar com péssima qualidade: batatas fritas murchas, suco quente... Mas, para ser aceito por meus amigos, parentes e pela toda poderosa sociedade, submeto-me ao absurdo de pagar a mais pelo que rejeitei. O mesmo vale para um sapato de couro que, segundo as palavras de um vendedor de largo sorriso, vai ceder. Meus pobres dedinhos gritam diante da tortura à qual os submeto na esperança de que o couro de baixa qualidade ceda à minha vontade. Resultado? Dedos calejados, vontade de matar o vendedor e desejo de nunca mais cair nessa.


No ano seguinte, muda o vendedor, muda o modelo do sapato, muda o preço, tudo muda, mas não muda minha inocência. E aí me jogo à aventura de crer que, desta vez, o couro vai ceder. Ai! Gritam meus pobres dedos.


É virada do ano. Faço uma lista de desejos a serem alcançados, mas não me esforço para beber dois litros d’água por dia. Abraço desconhecidos, mas não peço perdão a quem magoei. Um carro novo? Por que não? Só que não me esforço para conseguir a promoção nem concretizar um antigo projeto de um negócio próprio. Para meus filhos e netos, dentro de um livro esquecido, fica de herança uma lista de desejos jamais alcançados por uma inteligência acima da média, mas uma vontade tão débil que, às vezes, respirar já lhe causa certo desânimo.


É certo que o sol nasce para todos, mas somente alguns conquistam sombra e água fresca. Uns, pelo duro trabalho; outros, pela astúcia e corrupção. Quanto a mim, escriba de dias incertos, aí vai algo que nunca muda: tudo nesta vida muda, só depende de você se levantar e pôr em prática seus planos. Adeus ano-novo, feliz ano velho, ou seria o contrário?