22 de jan. de 2010

A Babel do terceiro milênio



     Em Dubai, um dos sete emirados que compõem um país chamado Emirados Árabes Unidos, inaugurou-se o edifício mais alto do mundo, em 2010, com mais de 800 metros de altura, 160 andares. Tal obra, inimaginável há alguns anos, é fruto da inteligência, do empreendedorismo, da coragem, da organização e de incontáveis predicados do homo sapiens. Dizem que isso é apenas o começo: em alguns anos, outro exército de empresários, engenheiros, mestres de obra e pedreiros vão superar esses números. Parece que a tendência é esta: a geração seguinte superando a anterior.
     Quanto aos meios de comunicação em massa, a velocidade é maior: a notícia sobre um fato ocorrido na China leva alguns minutos ou até segundos para chegar ao outro lado do mundo. Todavia, o conhecimento, os bons hábitos e ações para que seja possível salvar o planeta parecem ser inatingíveis num curto espaço de tempo. Infelizmente, isso se comprova a cada instante em nossas vidas. Atire a primeira pedra quem não demorou meia hora no chuveiro elétrico, ou quem jamais jogou comida fora.
     Estaríamos fadados ao fracasso? Quem sabe, daqui a uns cem mil anos, uma raça mais avançada visite nosso planeta, descubra maravilhas arquitetônicas, pesquise nossa cultura e chegue à conclusão de que quase nada nos faltava. Porventura gestos singelos – como pedir perdão e perdoar, consumir somente o necessário, aproveitar a opinião dos outros, reconhecer o próprio erro e ser misericordioso – estariam fora do alcance de tantos de nós a ponto de prejudicar seriamente gerações futuras? O que fazer? Deixar um mundo melhor para nossos filhos ou deixar filhos melhores para o mundo? Mudar o foco da questão é um passo importante.
     Na alegoria bíblica, com o projeto Torre de Babel, houve a tentativa de se manter muita gente, falando a mesma língua, num único lugar, para se chegar ao céu. Deus não gostou disso. Confundiu os construtores modificando comunicação entre as classes: o mestre de obras do segundo andar não entendia os pedreiros do primeiro e assim por diante. Dispersaram-se pelo mundo pessoas com idéias díspares e linguagem mais diversa ainda. O que resultou disso? Pluralidade de raças, povos, ideologias e religiões num único planeta – e isso tudo crescendo em progressão geométrica.
     Vale a pena lembrar que o principado de Dubai é uma babel de ingleses, indianos, turcos, brasileiros, americanos, árabes e judeus – todos vivendo em paz. O que falta ao resto do mundo para que as diferenças cedam lugar a um objetivo comum? Como não sou engenheiro social, antropólogo, sociólogo nem psicólogo, toda e qualquer inferência sobre esse problema será incompleta. Por isso, palavras devem silenciar-se para dar lugar a ações. Usar recursos limitados de forma racional já é um bom começo. Água, energia, alimento, dinheiro e tempo são exemplos patentes que nos saltam aos olhos, penetram os pensamentos, mas não chegam a muitos corações, pois, há relevante distância entre pensamento e ação. E talvez tal distanciamento seja a chave para o fim ou a permanência do homo sapiens neste planeta.