4 de jan. de 2010



Não quero bola dente de leite

A emoção é grande! Estamos fechando a primeira década do terceiro milênio da era cristã. Este texto, bem sei, vai envelhecer junto com meus valores e visão de mundo, mas, mesmo assim, vale a pena refletir sobre os pensamentos que permeiam minha breve existência.


Meus quatro amigos de serviço – Antunes, Bruno, Charles e Davi – convidaram-me para participar de uma brincadeira chamada amigo oculto. Funciona assim: os participantes escrevem seus nomes em papeizinhos que serão enrolados e posteriormente sorteados. Num dia e horário previamente marcados, é feita a troca de presentes. Até aí, tudo bem. Porém tenho uma sina: todas as vezes em que participei dessa brincadeira, sempre recebi o pior presente. Receber o melhor presente não é meu objetivo, pois, por incrível que pareça, quase sempre o que escolho para meu amigo oculto é o melhor. Por outro lado, tenho sempre um não amigo oculto (digo não amigo, pois a criatura não chega a ser meu inimigo, mas também lhe falta muito para ser amigo) que parece ter prazer em me magoar.

Certa vez, dei um perfume importado ao meu amigo; do meu não amigo ganhei uma camiseta com a famosa frase na frente “tem um corno me olhando” e atrás “continua me olhando”. Até que parecia engraçado, mas quase apanhei por ter cruzado o caminho de um homem traído por sua não amada. Noutro momento, dei um LP (Long Play ou bolachão, da época pré-histórica, pré-internet, pré-CD, pré-DVD etc.) e recebi uma caneta que durou uma semana até estragar. Aos dez anos (antes de a última era do gelo chegar ao fim), dei uma linda camiseta e ganhei uma bola dente de leite que, na semana seguinte, caiu no quintal do vizinho inteira e chegou a mim aos pedaços.

Voltemos à confraternização em meu serviço. Comprei um relógio de pulso, com visor de cristal, contagem regressiva, cronômetro, termômetro, pulseira em couro legítimo, uma série de inovações tecnológicas, além, é claro, de informar as horas em nosso país. Custou uma pequena fortuna. Meu presente? Adivinhem... Um jogo de cartas, daquelas que você compra em qualquer esquina. Minha reação? Nenhuma. Já estou acostumado com meus não amigos ocultos. Fiz um sorriso amarelo e recebi o quase presente.

Depois dessa situação, acho que não mais vou participar desse tipo de brincadeira! Afinal, embora dar seja mais importante que receber, a frustração pesa mais que o prazer de ver o sorrio largo de quem se surpreende com minha generosidade. Ops... O telefone toca. Só um minuto... Já estou de volta. Acho que minha decisão vai ficar para o ano que vem. Minha família está organizando a troca de presentes entre os amigos ocultos para a virada do ano, e já me colocaram na seleta lista a ser sorteada daqui a dois dias. Fazer o quê? Acho que o jeito é escolher um bom presente e torcer para não ser sorteado por outro não amigo. Caso seja, vou seguir o conselho de certa política: vou relaxar e chorar.

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