À noite, quando me lembro do que ocorreu durante o dia, revejo nobres instantes e outros não tão nobres, que deveriam ser apagados não apenas de minha memória, mas de toda minha existência. Um deles é como uma gota de tinta vermelha numa bela camisa branca. Por mais que tentemos, ela permanece.
Sem mais delongas, vamos ao relato de minha breve tragédia. Bem humorado, cheio de boas intenções – lembro ao leitor desavisado que o inferno está cheio de boas intenções – e com um sorriso largo, adentro uma sala eclética de credos e raças. Vejo um rapaz de origem asiática que participa de religiões oriundas da mãe África; um jovem quase negro que aderiu a judaísmo; bem como um jovem senhor que é testemunha de Jeová – para os que não sabem, Jeová é uma das muitas denominações que Deus recebe no Antigo Testamento. Como não há intenção nenhuma em direcionar a fé dos que crêem num Ser superior ou dele duvidam, a explicação anterior basta.
Em alto e bom tom, brinco com meu amigo: “Fala, Arquimedes! Como estão os estudos bíblicos? Pelo visto, você não é mais testemunha de Jeová, mas seu advogado!”. Nisso, ele balança a cabeça e, para mim, a ficha cai. Falei besteira? Ele nada diz. Peço desculpas e prossigo meu dia pensando nos bons momentos em que o silêncio tem peso de ouro: namoros desfeitos, empregos perdidos, guerras eclodidas, vidas ceifadas. Tudo isso apenas por falta de freio na língua – órgão minúsculo com poder de dar vazão às malícias da alma coletiva. Umas duas horas depois, confesso que fiquei surpreso, adentra a minha sala Arquimedes, Arqui para os íntimos. Seu semblante sereno e calmo deixa escapar um tom cinza no olhar. Quinze passos em quinze segundos foram a exata medida de tempo e espaço que me separava da inevitável verdade humana: somos todos falhos.
Arqui, se não me falha a memória pertence à mesma família de arquiteto, arquitetar, arquitetônico. E como os nomes das pessoas têm, de certa forma, fortes ligações com seus próprios destinos, meu amigo Arquimedes, com exemplar paciência, construiu diante de meus olhos um edifício de preceitos morais relacionados ao respeito das diferenças que nos tornam únicos. Ele não defendeu ardorosamente a doutrina das testemunhas de Jeová, mas me perguntou como eu me sentiria se alguém falasse jocosamente dos meus pais, irmãos e filhos. Se, com pessoas próximas a mim, meus sentimentos ficariam abalados, imaginemos isso em relação Àquele que criou tudo o que existe! Sua existência, continuou, independe da fé do ser humano. Por isso, mesmo os ateus recebem graças e bênçãos, pois o Sol brilha para justos e injustos. Desculpei-me pelo que disse e lhe pedi algo: se cometesse mais algum deslize, que ele, Arqui, tivesse a paciência de me corrigir. Ele gostou da minha postura; eu, da dele.
A mancha de tinta, inexoravelmente, causou seu estrago, mas ainda há tempo para refletir sobre a importância de se escolherem as melhores palavras, sem ruídos que manchem a comunicação.

Velho (mas novo) ou novo (mas velho) amigo Elmar,
ResponderExcluirviu como as palavras tem força para sacudir o universo? E com certeza você é dominador de uma das palavras mais importantes de todos os idiomas e dialetos: humildade. Ela tem o poder de criar o amor, a paz e a fé; ou talves seja irmã consanguínea de todas elas. Parabéns. Um abraço do velho (mas novo) ou novo (mas velho) amigo...
Desculpe-me, Professor, pelo "talves".
ResponderExcluir